Fernando Girão, músico e treinador: "Fiquei parvo a ver o Marante jogar..."

Fernando Girão, músico e treinador: "Fiquei parvo a ver o Marante jogar..."
Filipe Alexandre Dias

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Quem se lembra do anúncio que terminava assim: "Aquela máquinaaaa"? Fernando Girão dedica-se a treinar a formação do Operário. Mas antes houve muita bola entre ainda mais música numa viagem cativante que já conta mais de seis décadas É que jogou. Jogou muito, dizem.

Talvez não saiba, mas Fernando Girão era a voz do jingle da Regisconta que cantava "Aquela máquinaaaa". E sabia que o músico com diversos discos editados jogou futebol nos dois lados do Atlântico? Saiba tudo nesta conversa com O JOGO.

O Fernando é músico, mas a sua vida futebolística também é de sempre...

-O futebol não é nenhum capricho meu. É o oposto, um complemento que não me podia faltar. Joguei, mas quando ia assinar profissionalmente já tocava em grupos. Tinha treinos bidiários quando me deitava às quatro da manhã... Joguei sempre em bons clubes e fiquei com essa paixão. O meu pai [o compositor e guitarrista Fernando de Freitas] foi um grande amigo, mas era rigoroso, tal como a minha mãe [a cantora Maria Girão], e disse-me que tinha de decidir entre futebol e música. O meu rendimento já caía em treino. Já ouvia bocas. Perguntavam-me se estava doente e eu tentava disfarçar, mas o rendimento, o discernimento já sofriam. A habilidade continuava lá, mas não compensava o resto. Eu jogava de cabeça levantada, era um 10 canhoto, criativo, assumia as bolas paradas...

Mas em que clubes jogou e onde se iniciou?

-Nasci no Brasil e comecei na Portuguesa. Depois fui para o São Paulo. Os meus pais eram contratados para casas de fado e ficávamos um ano em São Paulo, outro no Rio de Janeiro... No Rio, joguei no Vasco da Gama, a par do São Paulo o meu clube do coração no Brasil, e também no Fluminense. Nisto, os meus pais separaram-se e depois tentaram uma reconciliação em Madrid, onde foram contratados para uma casa de fado. Um dos clientes era da direção do Atlético de Madrid. Fui lá e fiquei na equipa, mas depois viemos para Lisboa. Fui ao Belenenses e fiquei...

Na atura, era um prodígio brasileiro...

-Tinha sotaque e no Belenenses, o [técnico] Peres Bandeira começou a tratar-me assim. Ainda treinei com os seniores e passei a bola por entre as pernas de um gajo. Quando voltei a tentar, levei porrada, claro. Fugi logo a dizer que tinha de ir para casa. Mas ficava orgulhoso e quando descia ao meu escalão, perguntava se queriam um autógrafo [risos]. Naquele tempo, o futebol, o fado e até as touradas confundiam-se. As pessoas de um meio frequentavam o outro. Fui criado nesse ambiente, entre futebol e fado. Nisto, um diretor do Sporting disse ao meu pai para eu ir a Alvalade, onde seria treinado pelo Travassos. Fiquei maluco! Até era simpatizante do Benfica, mas depois fiquei sportinguista.

Mas vai para o Sporting e depois decide pela música. Nunca se arrependeu?

- Não. Tive uma carreira musical muito recheada. Vivi mais tempo fora do que dentro de Portugal. Quando o país era fechado, tinha passaporte brasileiro. Saía, entrava e vivi outro mundo. Ganhei bom dinheiro em Madrid, onde vivi onze anos, e em Paris, onde vivi quatro. Ganhei fortunas e também esbanjei. Tive a sorte de há 23 anos conhecer a Anabela, a minha esposa. Ela é uma mulher de negócios e colocou-me na linha.

Hoje concilia a suas duas paixões. É especial?

-[canta] "Agora eu sou feliiiiiz." Vivo tempos de grande euforia. A minha vida mudou, fiz um pé de meia e ajudo os meus filhos. Treino formação e estou de corpo e alma no Operário.

"O Operário tem quase 100 anos... e tem um nome lindo"

Com o mesmo fervor e entrega com que compõe, Girão trabalha na formação do clube de Lisboa por afeto, pela história e porque acredita que gosta de transmitir fundamentos de futebol bonito. O técnico - músico e o clube-resistente estavam destinados um ao outro. O Operário é de gente mesmo assim: operária.

A ideia de treinar surgiu ou era um objetivo?

-Os meus filhos foram para o Olivais Sul. Eu convivia ali com as pessoas e, no bar, um senhor diz que tinha sido craque no Xabregas, outro diz que o foi no Fofó, outro no Damaiense... Um deles teve o azar de me dizer: "Quer dizer, o único gajo aqui que não tem nada a ver com bola é o senhor Girão!" [risos]. Quando comecei a dizer os clubes onde joguei, ficaram espantados. Estava ali o treinador de juniores do Olivais Sul. Ele precisava de um adjunto e eu aceitei.

Porque esta a opção pelo Operário?

-Falaram comigo e o meu filho Vasco disse: "Ó pai, é o Operário....". Nem pensei mais. Ele e o meu outro filho, o Santiago, tinham jogado no clube, do qual gosto muito e onde sempre fui bem tratado. Dia 22 de maio do ano que vem, o Operário vai fazer 100 anos. Quantos clubes lisboetas têm esta idade? O Operário merece, por tudo. O clube tem cara nova e um diretor de futebol, o Pedro Almeida, um operário do Operário, um homem apaixonado. Aliás, este clube tem um nome maravilhoso. Não quero ser treinador de segunda ou primeira divisão. Quero é trabalhar jogadores operários, os craques, os craques-operários, vários tipos. Agarrar nessa amálgama e colocá-los a jogar bonito, ajudando clubes. Quero contribuir para o grande Operário.

Não foi só Girão que a música desviou. No cenário nacional, há o líder do Agrupamento Diapasão, sem esquecer o Tó Leal...

Conhece mais casos como o seu? Ou seja, de músicos bons de bola?...

-Uma vez fui capitão de uma equipa da Rádio Renascença num jogo contra o Rádio Clube Português. Foi a maior enchente no que era o Estádio do Estrela da Amadora [José Gomes]. Tínhamos o António Sala à baliza, mas eu fiquei surpreendido foi com o Marante. Eh pá... quando eu vejo o Marante a agarrar na bola e a posicionar-se... Ele sabia jogar! Ganhámos 3-1, rasguei-me todo nesse jogo, mas fiquei aparvalhado com o Marante. Ele tinha jogado mesmo. E o Tó Leal, que gravou uma música minha chamada "Aqui já não dá, também era bom. Deve haver mais músicos que jogam bem, mas esses foram os que mais me impressionaram.

Vê hoje uma ligação entre os dois mundos?

-Os gajos do metal, do rock e do jazz têm ligação ao futebol. Não me perguntem porquê...

Têm a palavra os três "fãs"
Impossível falar do treinador-artista sem ouvir quem com ele trabalha. Pedro Almeida, diretor do Operário considera "total" a importância de Girão no clube, o qual "todos querem levantar" e "vai ficar ligado ao centenário". Paulo Santos, treinador dos juniores, sabe "ele foi a escolha certa" para pegar nos juvenis do Operário. "Somos um clube histórico, estamos a alterar a estrutura e temos uma missão social forte junto dos jovens. Sendo figura pública, Fernando Girão ajuda-nos com generosidade, agrega e dá-nos visibilidade", sustenta Rui Mourinha, presidente do Operário.

Pé esquerdo mágico, mas escondido
O que Girão foi e podia ter sido como jogador ainda hoje espanta. "O [jornalista] Fernando Correia disse-me numa entrevista que não tinha ideia de ter visto um jogador com um pé esquerdo como o meu. Até os meus filhos se espantaram. Noutra vez, o Peres Bandeira estava à no [restaurante] Barbas com o Eusébio e o Coluna, viu-me e disse-lhes: "Se vocês soubessem o que este gajo jogava à bola... Era jogador de seleção, fosse de Portugal ou do Brasil"", lembra.

O famoso anúncio a que Fernando Girão emprestou a voz, há mais de 30 anos:

48 - Os anos de carreira a solo de Fernando Girão, então com o nome artístico de Very Nice. Toca em bandas desde os 14 anos e já participou em inúmeros projetos como intérprete e compositor

8 - Entre formação e séniores, Fernando Girão já treinou no Olivais Sul, Futebol Benfica, Catujal, Malveira da Serra, Agualva, Lisboa e Águias, Operário e é conselheiro técnico do FC Bravo, dos Estados Unidos