David Simão: "Nos jogos fora de casa sentíamos o racismo"

David Simão: "Nos jogos fora de casa sentíamos o racismo"
Rodrigo Cortez

Português do AEK conta a O JOGO os momentos complicados que viveu no futebol búlgaro

Futebolista do CSKA de Sófia durante a época de 2016/17, o português David Simão lembra-se que, quando a sua equipa disputava jogos fora de casa, eram frequentes os insultos racistas por parte de adeptos adversários.

"No CSKA havia vários futebolistas negros e quando jogávamos fora de casa sentíamos um pouco o racismo. Entre outras bocas, quase sempre vinham à baila aquelas mais habituais, de lhes chamarem 'pretos' ou 'macacos'. Às vezes diziam isso na língua deles e os nossos companheiros de equipa búlgaros é que depois nos traduziam as frases. Mas até em Portugal cheguei a ouvir comentários desses", comenta David Simão, contactado por O JOGO na sequência dos episódios racistas e de apologia ao nazismo ocorridos na passada segunda-feira, durante a fase inicial da partida entre a Bulgária e a Inglaterra.

O encontro chegou a ser interrompido duas vezes, mas os adeptos que tinham proferido os insultos saíram do recinto por volta dos 30 minutos e e a partida chegaria ao fim com a vitória inglesa por 6-0. Entretanto, o futebol búlgaro entrou em convulsão por causa do incidente, levando mesmo ao pedido de demissão do presidente da federação local, o antigo guarda-redes do Belenenses, Borislav Mihailov.

Segundo a experiência de David Simão, alguns adeptos violentos atuam impunemente no futebol búlgaro."Houve um dérbi entre o CSKA e o Levski, que nós ganhámos 3-0. No fim, o capitão do Levski foi pedir desculpa à claque deles e levou três socos na cara do chefe da claque, isto dentro do relvado. E a polícia não fez nada. Esses adeptos, lá, são muito violentos", conta, sobre uma ocorrência que até teve lugar no mesmo recinto onde agora se disputou o jogo de seleções: "Esse jogo também foi no Vasil Levski, que é um estádio neutro onde joga a seleção. As autoridades receiam tanto os distúrbios dos adeptos, que os dérbis entre CSKA e Levski são sempre no Estádio Nacional."

Para além dos cânticos racistas, com os adeptos a imitarem macacos, também a saudação hitleriana foi feita por vários elementos na bancada onde se encontravam adeptos da seleção búlgara. A esse propósito, Simão lembra que, quando ali atuou, também em alguns momentos foi confrontado com a apologia do nazismo. "Saudações nazis nunca vi, se bem que cheguei a ver símbolos uma vez ou outra, como as cruzes suásticas", conta, ele que agora defende as cores do AEK de Atenas, na Grécia.