Premium Mihajlovic, a lenda. E Sinisa, o racista violento?

Mihajlovic, a lenda. E Sinisa, o racista violento?

Está ali um homem e esse homem encontra-se em sofrimento. Mas uma "lenda" é categoria de outra natureza. E convém que alguém o lembre, porque do branqueamento ao revisionismo vai um tirinho, e o futebol já tem contas suficientes a ajustar com a História.

Não quero ser simplista: ainda há semanas a Academia Sueca premiou Peter Händke, ele que se expressou em defesa de Slobodan Milosevic, e eu achei que dar o Nobel da Literatura ao autor de livros como Poema à Duração ou Os Belos Dias de Aranjuez nunca poderia ser má decisão. Mas não deixo de registar o quão distintas são a preocupação das autoridades do futebol em combater o racismo e o gesto da Gazzetta dello Sport de galardoar Sinisa Mihajlovic com o prémio Lenda.

Claro: a Gazzetta é dona do seu nariz e não tem que seguir as preocupações da FIFA e da UEFA. Mas eu pergunto-me se o modo como o agora treinador do Bolonha tratou homens como Vieira ou Mutu - insultando-os, cuspindo-lhes - não devia ser preocupação de todos o que alimentam a ideia de civilização; se a maneira como Mihajlovic ateou o ódio de tantos adeptos italianos, em particular os da Lázio, deve realmente ser escamoteada; e se os ideais extremistas e nacionalistas que tantas vezes professou em público - já nem digo a amizade com Arkan, o assassino em massa que (concedo) talvez lhe tenha poupado os pais - podem mesmo, em face disso, ser vistos como uma excepção ao carácter de um homem decente.