Marega tornou impossível fazer de conta que o racismo não é um problema

Marega tornou impossível fazer de conta que o racismo não é um problema

JOGO FINAL - A crónica de Jorge Maia, com o foco no caso Marega

O racismo não vai acabar por decreto. Aliás, uma passagem rápida pela caixa de comentários de apenas uma das centenas de notícias publicadas ao longo dos últimos dois dias a propósito do caso Marega reflete uma imagem assustadora daquilo que somos enquanto sociedade e diz tudo sobre até que ponto este é um problema endógeno.

Há de tudo. Desde os abertamente racistas e xenófobos, que simplesmente repetem os insultos da véspera, até aos incapazes de sentir qualquer empatia, que relativizam a gravidade das ofensas e ridicularizam a coragem da reação, passando pelos perigosos especialistas em "mas". Desde o primário "foi insultado, mas ele é que provocou...", passando pelo mais elaborado "a ser verdade é grave, mas é preciso apurar muito bem o que se passou...", até ao revelador "eles insultaram, mas já houve outros que fizeram a mesma coisa...".

Fixemo-nos neste. O facto de não ser a primeira vez que um jogador é alvo de insultos racistas, e não foi, só demonstra que poucos têm a coragem e a presença de espírito necessárias para se recusarem a ser tratados como "não pessoas".

A coragem e a presença de espírito que Marega teve. Ontem mesmo, Nélson Semedo, alvo de cenas semelhantes há dois anos, confessava-se arrependido por não ter tomado a mesma atitude. "Hoje teria saído de campo", disse. Podíamos ter ganho dois anos se Nélson Semedo fosse na altura o jogador maduro que é hoje e não o miúdo que reagiu aos insultos com alguns gestos mudos para as bancadas.

Assim, tivemos de esperar que Marega desse um murro na mesa e nos obrigasse a olhar para o problema de frente, tornando impossível que continuássemos a fazer de conta que não existia. Existe e não se resolve por decreto, mas pode, deve e tem de se combater, dentro e fora do futebol.