UEFA avisa os belgas para as operadoras ouvirem

UEFA avisa os belgas para as operadoras ouvirem
Jorge Maia

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CARA E COROA - A opinião de Jorge Maia, diretor-adjunto de O JOGO.

No início da semana, a UEFA, por intermédio do vice-presidente, Michele Uva, garantia que cada Federação teria autonomia para, em conjunto com as respetivas Ligas, tomar as decisões que entendesse serem as melhores em relação aos respetivos campeonatos.

Cada Federação tem liberdade e soberania para decidir sobre campeões, lugares europeus, subidas e descidas", disse Uva, numa declaração aparentemente inequívoca, acrescentando que a UEFA se "limitaria" a definir a data para darem a lista das equipas classificadas para as próximas provas continentais. A data, como ficou definido em reunião com as 55 Federações europeias a meio da semana, é 3 de agosto.

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Entretanto, na sexta-feira, perante a perspectiva da Federação belga dar por concluído, desde já, o respetivo campeonato nacional, fixando a classificação atual como definitiva, Aleksander Ceferin tratou de esclarecer que, afinal, a autonomia e soberania das Federações tem limites, ameaçando com a exclusão das provas europeias as equipas dos países que não concluam as competições em campo. Mais do que a contradição entre aquilo a UEFA que diz à segunda-feira e aquilo que afirma à sexta, numa espécie de reformulação da velha máxima que garante que o que hoje é verdade amanhã é mentira, interessa descodificar a determinação do organismo europeu em ver as competições concluídas no campo, mesmo que para isso os jogos se tenham de disputar à porta fechada.

Ora, por um lado, há as questões que têm a ver com a defesa da verdade desportiva. Qualquer solução que passe pelo encerramento imediato das competições e pela atribuição administrativa de títulos, vagas europeias, subidas e despromoções será recebida com natural resistência por parte de quem se sentir prejudicado. Veja-se o caso português: ao FC Porto interessaria considerar a classificação atual, ao Benfica as posições relativas no final da primeira volta ou, no limite, a anulação pura e simples do atual campeonato, valendo os resultados do último. Até considerando a difícil situação financeira que resulta da atual situação de emergência, não é complicado imaginar que os 60 milhões de euros garantidos pelo acesso direto à Liga dos Campeões seriam o suficiente para que o clube que se sentisse prejudicado contestar até ao limite dos respetivos recursos jurídicos qualquer decisão administrativa. Terminar o campeonato, jogando as jornadas que restam, é, assim, a única solução capaz de garantir a defesa da verdade desportiva e, com ela, alguma paz.

Por outro lado, tão importante como a questão desportiva é a vertente financeira do negócio. E essa, seja a nível interno, como ficou claro perante a recente tomada de posição das operadoras, seja a nível europeu, depende em larga medida do pagamento integral dos direitos televisivos negociados para esta temporada. O encerramento imediato dos campeonatos teria como consequência inevitável o cancelamento dos pagamentos das operadoras, às quais não se pode exigir o pagamento de um produto que não existe.

Ora, depois de ter abdicado de cerca de 2500 milhões de euros com o adiamento do Europeu para o próximo ano, a UEFA não quer e, no limite, não pode admitir, pelo menos em voz alta, a possibilidade de não conseguir encerrar as competições de clubes. Mais do que um ultimato aos belgas, mais até do que um aviso às restantes federações europeias, as últimas declarações de Aleksander Ceferin são uma mensagem dirigida aos operadores, patrocinadores e parceiros da UEFA: não guardem já o livro de cheques que isto ainda não acabou.