Maradona: como dizer adeus a um Deus?

Maradona: como dizer adeus a um Deus?
Luís Freitas Lobo

Tópicos

Luís Freitas Lobo, cronista de O JOGO, reage à morte de Diego Armando Maradona.

Quero falar-vos do meu Deus. O único na religião do "futebol com que sonhei" transformou em terreno aquilo que nunca ninguém antes na relva ou no céu do Olimpo tinha sequer ousado imaginar.

Há quem defenda que a bola é um ser vivo, dotada de vontade própria, que só se aproxima daqueles que a sabem tratar bem, com amor e carinho. Também penso assim. Por isso, durante muito tempo, pensei que o tesouro do futebol em estado puro estava guardado num lugar seguro, fechado a sete chaves: o corpo de Diego Maradona.

Tenho, pelas paredes da minha casa, espalhadas fotos e quadros de Maradona. Quem a visitou sabe que é verdade e como quando me sento para escrever ou ler é a sua imagem (numa montagem que fiz desde os seus tempos de pibe no Boca a génio na seleção) que tenho sempre à minha frente.

Neste momento em que a sua existência terrena, onde foi maior do que a sua própria vida, parte para outra dimensão, de eternidade, longe do único local no qual se sentiu feliz, um campo de futebol, não consigo descobrir como dizer adeus a um Deus do futebol.

É impossível, porque para além dessas mágicas quatro linhas, a vida nunca respeitou o seu talento divino. Da tatuagem do Che, aos desafios a todos os poderes, os abraços com Fidel, os pecados, a "mulher branca", os títulos, os poemas e os erros. Como se fosse um Deus igual a todos nós.

Guardo religiosamente todos os resumos dos seus jogos e golos, do Boca ao Nápoles, entre eles um livre indirecto marcado, numa tarde de chuva, frente à Juventus, com um chapéu à entrada da pequena área fazendo a bola sobrevoar, como um pássaro, toda a equipa adversária, até ao angulo superior da baliza de Tacconi. Um chapéu-poema em forma de futebol.

Em qualquer momento ou local que repouse a sua existência, Diego seguirá driblando para a eternidade na minha memória como um desafio ao impossível, rompendo fronteiras no tempo, porque vê-lo jogar, como pibe com a camisola do Argentinos Juniors ou como capitão da selecção de Gardel, foi, para mim, um agnóstico que gosta e respira futebol, a única prova de que Deus existe. A última reserva de um 'fútbol' amado que se nos escapou das mãos como areia fina por entre os dedos. Amo-te Diego!