O VAR é o meu pastor, nada me faltará

O VAR é o meu pastor, nada me faltará

Com o VAR foi-nos dito que poderíamos estar seguros, este corrigiria os erros, desatenções ou falta de visão do Sr. Árbitro

A pressão sobre os árbitros nunca foi tão grande, com câmaras focadas em cada jogada, gravando todos os ângulos e posições em alta definição; com tecnologias virtuais que recriam todas as jogadas; com milhões de publicações dos fãs do futebol nas redes sociais e com um exército de especialistas, ex-árbitros e todo o tipo de comentadores questionando as suas decisões.

O VAR foi criado para abençoar os fãs e guardar a verdade desportiva. O projeto VAR está detalhado no "Manual de implementação para competições", mais conhecido por "Protocolo do video-árbitro", que foi elaborado pelo International Football Association Board e que tem vindo a ser atualizado com contributos de federações, árbitros e técnicos de arbitragem envolvidos no projeto. Hoje é já certo que o mesmo tem muitas e inegáveis vantagens, mas não tem a virtualidade de acabar com os problemas e discussões no futebol.

Com o VAR foi-nos dito que poderíamos estar seguros, este corrigiria os erros, desatenções ou falta de visão do Sr. Árbitro. Em troca, perdeu-se a explosão de alegria verdadeira e espontânea da marcação de um golo, existe agora algum receio que o mesmo possa ser manchado de pecado e que o VAR possa atuar para nos prover a melhor decisão. A eventual segunda alegria da decisão do vídeo-árbitro não é a mesma coisa, é uma explosão controlada: mas lá está, o VAR seria nosso pastor, nada nos faltaria.

A verdade é que faltou! Não sou descrente, aceito fielmente o princípio estruturante de que o VAR só deve ser utilizado para corrigir erros claros e para incidentes graves não assinalados em decisões que alteram o jogo (golo, penálti/não penálti, cartões vermelhos diretos e erros de identificação). Mas não imaginam como gostava de ter visto tal princípio em prática na última jornada dos quartos-final da Liga dos Campeões.

Como crente no VAR, examino primeiro o incidente no Tottenham Hotspur Stadium. Rose corta remate de Sterling no início do primeiro tempo, quando o árbitro Bjorn Kuipers foi alertado pelo olho no céu que houve um corte com o braço, que originou um penalti e cartão amarelo para Rose. No mesmo jogo, parece que ficou por assinalar um cartão vermelho para Fernandinho que deu uma cotovelada em Kane.

No segundo jogo com incidentes envolvendo uma equipa portuguesa, em Anfield Road, na sequência de um lance em que o F. C. Porto pediu grande penalidade cometida por Alexander-Arnold, do Liverpool, que joga a bola com o braço (ainda mais afastado do corpo do que no primeiro lance examinado), o VAR influenciou o árbitro António Mateu a não assinalar o devido penálti. Uma desilusão, VAR porque abandonaste tal equipa! Então a UEFA não deu instruções para assinalar todo este tipo de lances em que o braço esteja afastado do corpo? E o que me dizem da decisão de bradar aos céus da entrada perigosa de Salah sobre Danilo, um lance que parece sempre pior de cada vez que se assiste? Sem ação disciplinar, esse fantástico jogador tem bilhete para a segunda mão que se disputa quarta-feira desta semana, onde o Liverpool defenderá uma VARtagem de 2-0.

O VAR nunca será uma panaceia para todos os males do futebol, nem pode ser enunciado como um poderoso salmo, discutiremos sempre, entre outras situações, se um braço foi deliberado ou acidental, faremos sempre comentários se determinado lance ou incidente deveria ter sido ou não revisitado, pois o VAR (tendo intervenção humana) erra pouco, mas erra. Mas é assim o futebol e não há adepto que não goste de ter tema de conversa depois do apito final...