"Havia aquela ideia errada de que o futebol não era para meninas, muito machismo"

"Havia aquela ideia errada de que o futebol não era para meninas, muito machismo"
Filipa Mesquita

Mais conhecida por Bekas, Isabel Brás faz parte do plantel do Gil Vicente, equipa da Zona Norte que luta pela permanência na Liga BPI. No último jogo, a avançada, 30 anos, foi a protagonista da primeira vitória da equipa.

A avançada Bekas chegou aos gilistas no ano passado, depois de 14 anos no Amorim. Hoje confessa que o sonho de ir à Seleção Nacional ficou por cumprir.

Em que altura descobriu a paixão pelo futebol?

-Atrevo-me a dizer que nasci com esta paixão. Na escola, jogava com os rapazes nos intervalos. E quando chegava a casa, a primeira coisa que fazia era pegar numa bola.

Em que clube começou a dar os primeiros passos?

-Eu comecei a jogar futebol a nível competitivo já com 15 anos. Não tive em qualquer escalão de formação, ingressei logo como sénior. Na altura, era ainda um campeonato inter-freguesias, na Póvoa de Varzim. Fui para o Amorim e foi lá que me iniciei no futebol federado. Lembro-me bem do meu primeiro jogo: comecei a titular e fiz um hat trick.

Começou a jogar com 15 anos, não teve a experiência de equipas mistas?

-Não, com rapazes joguei apenas no tempo de escola. E gostava imenso. Eles têm uma capacidade física diferente das raparigas. E ao jogar com eles sentia uma exigência diferente. Isso é muito bom para evoluir.

O facto de se começar, regra geral, em equipas mistas mostra que há um longo caminho pela frente?

-A verdade é que há ainda muito caminho para trilhar. Mas, o facto de terem de iniciar com rapazes até pode ser positivo. Da parte dos rapazes, criam logo desde pequenos respeito pelo desporto no feminino e educa-os nesse sentido. Hoje em dia, as raparigas que começam a praticar futebol não passam pelas mesmas dificuldades de outros tempos. Isso indica que estamos a progredir.

O que é mais difícil para si, sendo mulher, neste mundo do futebol?

-Para começar, em Portugal são poucas as jogadoras que são profissionais nesta modalidade. Embora já tudo comece a ser diferente. No entanto, no mesmo campeonato, existem equipas profissionais e amadoras. Isso acaba por criar ainda muito desequilíbrio a nível competitivo. Depois, dentro do mesmo tema, temos a questão dos salários. Para as mulheres que são profissionais, há uma diferença abismal em relação aos homens. Não concordo com os valores estrondosos que há no masculino, mas a desigualdade é bem visível. Temos ainda a questão dos filhos. Uma mulher que jogue futebol, se quiser formar família, fica naturalmente forçada a parar a carreira por demasiado tempo. Há ainda o preconceito. Não há muito tempo, havia aquela ideia errada de que o futebol não era para meninas, que uma mulher que joga futebol não é tão feminina como as outras. Muito machismo. Éramos até apelidadas de "maria rapaz". Ainda bem que as mentalidades estão a mudar.

E sente que já há uma evolução notória?

- Felizmente, já houve boas mudanças. Hoje em dia, os clubes já apostam mais no feminino, e estão a criar cada vez mais condições. O futebol feminino está cada vez mais competitivo, e isso faz com que as pessoas gostem de assistir a uma boa partida. Outro fator importante é que já há equipas profissionais em Portugal. Isso cria muitas oportunidades de fazer carreira no futebol dentro do nosso país. As meninas que estão agora a iniciar o futebol já vão ter muito mais condições. E nós, mais experientes, somos responsáveis por isso. Isso deixa-me orgulhosa por poder fazer um bocadinho parte da evolução e da história.

Chegou ao Gil Vicente há duas épocas. Como é que está a ser esta experiência?

- É um clube com muita história. Foi uma decisão difícil, por estar há muitos anos ligada ao mesmo clube, mas sentia que precisava de sair da minha zona de conforto, essencialmente para sentir novos desafios e perceber o meu valor. Foi a decisão certa.

A equipa não atingiu a fase de Campeão. O que foi mais difícil na fase inicial?

- Numa primeira fase do campeonato as coisas não correram como o esperado. Trabalhámos bem, temos qualidade, temos vontade, mas a verdade é que os resultados não estavam a surgir de forma positiva.

Agora, para a segunda fase, que expectativas têm?

- Temos de continuar a lutar pelo objetivo da permanência. Podemos ver esta segunda fase como uma segunda oportunidade. Felizmente, começámos bem no primeiro jogo, e já somámos pontos.

No último jogo bisou, diante do Cadima. Como é que viveu esse momento?

- Foi um jogo bem conseguido. Estou feliz por somar pontos e por poder contribuir para a vitória da equipa. Fomos, acima de tudo, com um bom espírito coletivo.

Que objetivos tem?

- Quero desfrutar do futebol e continuar a superar os meus limites enquanto jogadora. Gostava de ter tido a experiência de ir à Seleção Nacional. Mas acho que é tarde para esses voos...