Aquele que mais merece a medalha

Já conheci muitos atletas olímpicos, mas nenhum como Fernando Pimenta. Aquela dedicação e o seu enorme coração merecem uma recompensa

Escrevo isto antes de meia-final e final do K1 1000 metros da canoagem, porque nunca fui de elogio fácil e estas são palavras sentidas. Conheci o Fernando Pimenta antes da sua primeira medalha olímpica e posso garantir que, entre as centenas de grandes atletas com que me cruzei, numa longa carreira de jornalista, nunca encontrei nenhum como ele.

O Fernando de há 10 anos era um rapaz simples, algo intimidado quando tinha microfones à frente; depois da prata de Londres"12, deixou até a maioria das declarações para o seu colega no K2, Emanuel Silva. No Rio"16, onde já alinhou incutindo respeito aos adversários, que viam nele no melhor do mundo, fez um discurso de sete minutos defendendo os valores dos atletas e do olimpismo, isto antes do desaire na final que o deixou a chorar em frente aos jornalistas. Não tenho vergonha de escrever que fui um dos que chorou com ele e que ainda hoje me irrito quando alguém faz a chalaça das "algas", como sinónimo da desculpa à portuguesa. Estava lá e vi que algo de anormal tinha travado o caiaque dele, tive à minha frente as folhas que boiavam na água e estragaram aquela final olímpica, que deveria ter sido repetida.

Mas não é isso que distingue o Fernando Pimenta nem faz dele o que mais merece ir ao pódio em Tóquio. Azares acontecem a todos. O que mais impressiona nele foi ter lutado com a própria federação, que duvidava do seu êxito na prova individual, provando ter razão ao transformar-se no melhor do mundo. O que mais o distingue foi ter atingido esse estatuto e continuar a ser o homem humilde que sempre foi; ser tão amigo do seu amigo que nunca hesita na hora de ajudar adversários; manter uma ligação tão grande às origens que aproveita todos os momentos para promover Ponte de Lima; dedicar-se tanto à sua profissão de canoísta que se encontrava a estagiar quando soube que a filha estava a nascer...

É o coração enorme - tanto dele como do treinador Hélio Lucas, pois em desportos individuais atleta e técnico estão umbilicalmente ligados - que faz do limiano Fernando um atleta único. Por isso, eu que até comecei a dar uns passeios de caiaque inspirado por ele, estou pronto para gritar Pimenta. Se alguém merece a medalha, é ele!