Este país não é para nadadores

Carlos Flórido

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A debilidade da modalidade, que é histórica, deixa-me sempre intrigado, pois não faltam praticantes - em 2018 estavam registados 89 mil, o segundo maior número depois do futebol - nem piscinas.

Antes de Tóquio já havia 55 países com medalhas olímpicas na natação. É uma das modalidades mais competitivas do mundo e o domínio das potências Estados Unidos e Austrália não impede que uma Tunísia tenha festejado esta semana uma medalha de ouro.

Quanto a Portugal, teve ontem o seu feito histórico com o apuramento de Ana Catarina Monteiro para uma meia-final, seguida de um ainda mais histórico 11.º lugar final. Se isso se repetisse nos masculinos, esta seria a melhor edição de sempre. Mas, e sendo atingir os 16 primeiros a ambição da natação, temos aqui um défice de competitividade face à restante Missão portuguesa que custa a entender; e comparar com outros países será ainda mais doloroso.

A debilidade da modalidade, que é histórica, deixa-me sempre intrigado, pois não faltam praticantes - em 2018 estavam registados 89 mil, o segundo maior número depois do futebol - nem piscinas. Nem se vislumbram culpados. A Federação Portuguesa de Natação - e da atual direção tenho a imagem de elevada competência - já tentou de tudo, como colocar atletas nos Estados Unidos para treinarem com os melhores, enviá-los para Barcelona e integrá-los no êxito espanhol ou criar um Centro de Alto Rendimento com excelentes condições em Rio Maior. Os resultados evoluem um pouco, finais olímpicas nem vê-las, medalhas nem em sonhos.

Só descubro uma explicação: Portugal, com o seu sistema de ensino de cargas horárias elevadas, impede a progressão de quem precisa de crescer fazendo dois ou três treinos diários, leva ao abandono dos muitos que não aguentam a violência, física e psicológica, dessa preparação - só quem lá anda sabe o que custa passar horas diárias a ver o fundo de uma piscina - e a elite que resta é de número tão reduzido que só com sorte dela sairá um dia um medalhado olímpico.

Por isso, e enquanto continuamos à espera desse Carlos Lopes das piscinas, parabéns à Ana Catarina Monteiro. Sendo portuguesa, sofreu mais do que as outras para chegar tão longe!