O campeão que preferiu ser português

O campeão que preferiu ser português
Carlos Flórido

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Pedro Pichardo é um caso único entre os naturalizados, mas nunca mereceu o estigma que foi criado após a sua chegada. Tê-lo entre nós é um motivo de orgulho para Portugal.

A Missão portuguesa destes Jogos tem um recorde de atletas naturalizados, mas de múltiplas origens. Em Tóquio misturam-se filhos de imigrantes, descendentes de emigrantes que optaram pelo nosso país, atletas que mudaram de país para evoluírem com melhores condições de vida e de treino e, finalmente, um campeão que desertou e optou por ser português. Pichardo não é o primeiro naturalizado a subir ao pódio olímpico - antes dele tivemos Francis Obikwelu e Nelson Évora -, mas é um caso único do ponto de vista desportivo num país que nunca entrou no mercado da naturalização de estrelas, essa prática horrível que todas as federações tentam impedir.

Fugindo de Cuba, onde não o deixavam ter o pai como treinador - e o resultado destes Jogos prova que a família Pichardo estava certa e a federação cubana errada -, o agora campeão foi alvo de uma espécie de "leilão", aceitando a oferta de Portugal e do Benfica face a várias outras e impondo como uma das condições o ser naturalizado ainda durante esse ano de 2017, para não arriscar ser impedido de competir pelas regras que a modalidade iria mudar no início de 2018.

Foi um processo claro e sem culpados, mas não impediu que se criasse de imediato um estigma. Nuns casos por clubismo, em alguns por puro nacionalismo ou racismo, na maioria porque ele vinha substituir Nelson Évora no Benfica e o campeão olímpico de Pequim'2008 sempre foi muito acarinhado.

O caráter reservado de Pichardo, que nas provas nacionais aparece rodeado pela família, não cultivando grandes amizades no meio do atletismo, e a política de comunicação dos grandes clubes, que limita entrevistas e aparições públicas, fizeram o resto. Até ontem, poucos portugueses conheciam verdadeiramente o seu novo campeão. Muitos tinham dele uma má imagem.

Não por acaso, tudo mudou no espaço de duas horas. O seu título olímpico chegou com uma exibição fantástica - o terceiro maior salto da história dos Jogos! - e depois, em várias e belíssimas entrevistas, este campeão português, que admitiu ser envergonhado, deu-se a conhecer como nunca antes. Gosta de bacalhau à Brás, canta o hino, pediu desculpa pela pronúncia, não quer polémicas com Évora e até revelou que foi o pai Jorge e não ele a escolher Portugal - pelo clima e por ter poucos cubanos -, uma confissão que poucos fariam.

Pichardo, e escrevo na primeira pessoa porque não posso falar por outros, tenho muito orgulho em que sejas português!