O judo daqueles que não atacam

Mudaram-se as regras de pontuação e criaram-se prolongamentos em vez de votações dos árbitros, tudo em nome de combates mais atrativos. O resultado é demasiadas vezes o oposto.

As regras do judo sempre sofreram alterações, até porque as que vigoravam há mais de um século custavam, ao que se escreveu na altura, a vida a vários dos que combatiam.

Mas desde que se entrou neste século, e depois da fantástica ideia de um dos fatos ser azul, as mudanças numa modalidade já difícil de entender para os leigos tornaram-se bastante subjetivas.

Os judocas passaram a não poder agarrar as pernas do adversário, o que eliminou muitas das técnicas inventadas pelo "pai" Jigoro Kano, os três árbitros, que tinham a decisão final em caso de empate, deram lugar a um só e ao prolongamento - "golden score" - e os métodos de pontuação, koka, yuko, waza-ari e ippon (este o KO) foram reduzidos aos dois últimos. A ideia seria simplificar e tornar os combates mais atrativos, o resultado é demasiadas vezes o oposto.

São muitos os confrontos que vão para prolongamento e também aqueles que se decidem em castigos, sem que os atletas tenham pontuado.

Para ilustrar as diferenças, o combate que eliminou Telma Monteiro em Tóquio é exemplar. Com o método de pontuação anterior, a queda da polaca ainda nos quatro minutos iniciais teria rendido um koka ou yuko à portuguesa. Portanto, ela venceria. Caso esse momento não fosse considerado, o combate iria para uma decisão dos três árbitros e o desfecho seria o mesmo: praticamente só Telma atacou, logo seria declarada vencedora.

Como já nada disso existe, a melhor judoca no tapete perdeu por sair uma vez da área de competição e por ter feitos dois "falsos ataques", uma penalização que até a mim, como antigo praticante, faz imensa confusão - um judoca cansado inicia sempre ataques que não consegue terminar.

É este o judo atual, que quase só tem espectáculo com judocas de tudo ou nada, como Jorge Fonseca. Eu, sinceramente, não gosto.