Simone Biles: os tiranos do treino e os das redes sociais

Simone Biles: os tiranos do treino e os das redes sociais
Carlos Flórido

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Biles certamente valoriza demasiado os milhares de "haters" de Instagram e Facebook, que muitos atletas, como Naomi Osaka, confundem até com jornalistas.

A pressão sobre um atleta de topo mundial, como Simone Biles, é algo que nós, os comuns mortais, não conhecemos. Porque, para chegar ao estatuto de melhor ginasta da atualidade, a norte-americana - tal como a tenista Naomi Osaka, derrotada em Tóquio por motivos semelhantes -, teve de provar ser imune à pressão dos resultados, métodos de treino demasiado exigentes e privações que no seu caso superaram todos os limites: ela foi treinada pelo célebre casal romeno Béla e Marta Károlyi, a dupla que fabricou Nadia Comaneci e foi contratada pelos Estados Unidos para replicar os seus métodos de quase escravidão; foi o sistema desses treinadores a permitir a existência do repugnante médico Larry Nassar, que abusou sexualmente de dezenas de ginastas, incluindo Biles.

Olhando a esse passado, que atemoriza qualquer ser humano decente, torna-se difícil perceber como não resiste agora Biles à pressão, que passou a ser "apenas" a de provar ser a melhor do mundo. Arrisco uma teoria: liberta dos Károlyi e de Nassar, a pequena ginasta descobriu o mundo normal; e o medo que tinha aos treinadores deu lugar ao medo sobre o que pensam dela. Os tiranos de carne e osso deram lugar aos assassinos das redes sociais.

Biles certamente valoriza demasiado os milhares de "haters" de Instagram e Facebook, que muitos atletas, como Naomi Osaka, confundem até com jornalistas, pois dão opiniões, diretamente e por escrito. Obrigados a frequentar as redes sociais, pois é nelas que fazem render os seus patrocínios, muitos atletas não criam imunidade aos críticos que as enxameiam - conheço vários casos de portugueses para o comprovar.

O que se estranha, sobretudo em atletas do estatuto de Biles e Osaka, é não terem sido preparadas para isso pelos psicólogos das suas equipas. Trocar o aconselhamento talvez fosse um bom primeiro passo para superarem a pressão.