Volta a Portugal da covid-19, da tática e da emoção

Volta a Portugal da covid-19, da tática e da emoção
Carlos Flórido

Tópicos

Corrida deu que pensar sobre a pandemia, as táticas do ciclismo e as questões de sorte e azar.

1. A covid-19

Pela primeira vez, O JOGO foi impedido de terminar a Volta a Portugal com livre acesso a todos os pontos de reportagem, numa demonstração de excesso de zelo que não adianta contrariar - o plano sanitário da corrida permite afastar qualquer um, mesmo vacinado e testado - e que foi uma espécie de tranca na porta de uma casa contagiada. A verdade é que esta Volta, ao contrário da do ano passado, ficará para sempre como a "corrida da covid", pois pela primeira vez foram afastadas três equipas e desfalcadas outras duas, numa sequência de casos positivos que só foi travada com uma bateria de testes a ciclistas e seu "staff". É verdade, não foram os jornalistas, mascarados, mantidos em distâncias de segurança e obrigados a fotografar homens de máscara sozinhos num pódio, a gerar o contágio.

O que aconteceu na Volta foi grave e deu que pensar:

- embora com a população protegida por vacinas, o país tem agora 10 vezes mais casos do que há um ano por esta altura, e esse foi um verão em que andamos todos cheio de medo;

- a vacina diminui a gravidade da doença mas, como se verificou na Volta, realmente não trava o contágio;

- mais relaxados, os ciclistas conviveram com familiares e amigos quando se encontraram fora da sua muito restrita "Zona 0", muitas vezes sem máscaras. Foi esse desleixo que deixou a Volta em polvorosa e só terminou quando soaram as campaínhas de alarme e se passou para o excesso de zelo.

Se há um ano a Volta provou ser possível haver desporto em tempo de pandemia, esta foi útil para deixar alguns avisos.

2. A tática

Muito se discutiram, numa corrida demasiado equilibrada até ao final, as táticas do ciclismo e sobretudo as de W52-FC Porto e Efapel. Com, pelo que fui lendo, algumas apreciações injustas para os diretores-desportivos envolvidos.

Nuno Ribeiro é um dos técnicos mais experientes, sempre foi elogiado pelos triunfos desenhados desde o carro e nem sempre reconhecido pelo mais complicado, a capacidade de gerir uma equipa com vários líderes. A complexidade é tanta que foi isso a afundar a Movistar, outrora a melhor equipa do mundo, ou a criar dificuldades recentes na Ineos pós-Froome.

O método Nuno Ribeiro é simples: reparte êxitos entre os principais corredores ao longo da época e na Volta segue um famoso chavão, o da "estrada decide". Este ano, e com exceção da Volta ao Algarve conquistada por João Rodrigues, as vitórias foram sendo repartidas por José Neves, que nem foi à Volta, e pela Efapel, deixando Amaro Antunes e Jóni Brandão sem triunfos à dimensão dos respetivos estatutos. Como a primeira dificuldade na Volta deste ano era a Torre, o trio atacou à vez, para a estrada (na realidade os adversários) decidir qual deles poderia fugir para a vitória. Nenhum o conseguiu e a W52-FC Porto ficou com um problema inédito, semi-resolvido no dia seguinte, quando Amaro Antunes ganhou tempo na chegada à Guarda. A partir daí, e com a equipa a desesperar devido às marcações individuais da Efapel, os portistas tiveram de entrar num jogo de paciência, apostando tudo nas etapas do Larouco e da Senhora da Graça, as montanhas onde esperavam eliminar um fantasma chamado Mauricio Moreira. Nem aí o conseguiram - o verdadeiro problema era a força do uruguaio -, mas foram bafejados no contrarrelógio final. Amaro, afinal, tinha ganho a Volta na Guarda...

Rúben Pereira é um dos diretores-desportivos mais jovens, mas cria uma boa relação com os ciclistas e aprende depressa. Depois de anos em que as ambições da Efapel esbarraram na fortaleza W52-FC Porto, foi inteligente e virou a tática ao contrário: disse só querer ganhar etapas, fez ataques cirúrgicos e marcou os portistas homem a homem.

A estratégia não era das mais bonitas, mas foi eficaz: a Efapel fez a sua melhor Volta de sempre - ganhou seis etapas e por equipas -, se descontada a ausência do triunfo final, travado pelo queda de Mauricio Moreira no contrarrelógio. E, importante para ele, a união dos seus ciclistas saiu reforçada, pois deu sempre o estatuto de líder a António Carvalho, reservando em lugar discreto o talentoso Mauricio. Era essa a verdadeira aposta, que na realidade Pereira nem sabia se duraria até ao final, pois na sua carreira só tinha feito uma corrida de 10 dias, a bem mais simples Volta ao Uruguai.

Finda a Volta, Nuno Ribeiro pode dizer que fez o essencial, ganhou mais uma vez; e Rúben Pereira pode dizer que só não ganhou devido a uma queda.

3. A emoção e a queda

Mauricio Moreira, um corredor que este ano se revelou espantoso, perdeu a Volta em dois momentos: nas garrafas de água que apanhou durante a subida à Torre, e lhe custaram uma penalização de 40 segundos, e na queda do contrarrelógio de Viseu. Foi uma soma de inexperiência e azar. Mas este azar merece ser pensado.

Nunca esquecerei aquela Volta que Vítor Gamito perdeu por 9 segundos para David Plaza, também num contrarrelógio final. Alguns meses depois, e em conversa com o terceiro protagonista desse dia, o famoso Melchor Mauri, este ficou espantado quando lhe disse que Gamito, durante a prova, desconhecia estar a perder e por quanto. E deu-me uma das suas famosas aulas de ciclismo: "Isso não pode acontecer. Nessas situações, o carro tem de avisar o ciclista, pois uma grande corrida nunca se perde por 9 segundos. Esse tempo equivale a duas ou três curvas feitas à morte. Ou ganhas, ou vais ao chão e morres; nunca perdes por tão pouco, que ficas a vida toda a pensar naquelas curvas que devias ter feito à morte!".

Mauricio Moreira, e por isso me lembrei da história, ia à morte. Perdeu, mas merece ser louvado pela coragem.