Premium Duas citações e um só Pizzi

Jacinto Lucas Pires

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DESCALÇO NA CATEDRAL - Um artigo de opinião de Jacinto Lucas Pires.

Era uma vez um miúdo que se fez craque da bola porque tinha o sonho de vestir o manto sagrado no relvado da Catedral, de poder vir a cumprir a sua vocação como jogador do Glorioso, continuando a lenda de Eusébio, Chalana, Rui Costa, Aimar. Era uma vez - mas não foi há muito tempo. Entretanto, mudaram-se as vontades... Não é que os miúdos tenham deixado de sonhar; é que, se algum ousa dizer que recusa milhões para viver esse sonho benfiquista, é crucificado por dirigentes, agentes e pelo tal do "sistema". Ocorre-me isto a propósito das recentes declarações de Bruno Lage: "O Benfica tem de convencer os jogadores a fazer carreira na Luz."

Claro que este estado de coisas não é um exclusivo português, este "pragmatismo" da especulação futebolística é global. Mas um dos seus representantes por cá chama-se Luís Filipe Vieira. A direção do Benfica - que vendeu precocemente jogadores como Bernardo Silva, João Cancelo, Renato Sanches ou João Félix - vive cega pelo que o cientista Karl Marx chamou o "fetiche da mercadoria". É uma direção que fala muito do "investimento na formação" mas depois olha para os jogadores como se estes não tivessem uma história e um futuro, como se fossem meras "unidades" que entrassem em campo menos para jogar à bola do que para se "valorizarem". Por isso é que é tão importante a afirmação de míster Lage. No fundo, o que o treinador vem dizer é: não contem comigo para futebóis-montra, eu estou aqui para fazer uma equipa a sério, com identidade, que brilhe em Portugal e na Europa.