A mudança exige coragem e pensamento estratégico, algo tão raro no futebol luso

A mudança exige coragem e pensamento estratégico, algo tão raro no futebol luso
José João Torrinha

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PONTAPÉ PARA A CLÍNICA - A crónica semanal de José João Torrinha

Esta semana, deu-se mais um sobressalto daqueles típicos do futebol português. De repente, o país (a pretexto da eliminação em série das equipas portuguesas na UEFA), acordou para o problema da falta de competitividade do nosso campeonato e dos seus emblemas.

Em minha opinião, o pretexto é errado, o problema é real e de resolução urgente, as medidas para o resolver são conhecidas há muito e poucos olham para o quadro mais amplo em que tudo isto acontece. Mas vamos por partes.

O pretexto é errado porque, apesar do inusitado afastamento de uma penada de quatro equipas, esta até foi uma época positiva para o futebol português, que somou mais pontos do que a sua concorrência mais próxima. Aliás, já foi garantido que Portugal vai estar mais representado na Europa nas épocas que aí vêm. O pretexto é, por isso, "ao lado".

O problema de fundo, todavia, é bem real. A questão é que, à boa maneira dos tempos que correm, vamos ter o costume: duas semanas (se tanto) a discutir a questão como se fosse a mais importante do mundo e depois... a paz dos cemitérios...

O professor Manuel Machado, em entrevista dada por estes dias, diagnosticou na perfeição as razões do bloqueio português: um Estado desinteressado de corrigir as questões da falta de competitividade do nosso futebol; uma Federação que tem mostrado competência, mas que vive quase exclusivamente voltada para si própria; uma Liga que se limita a gerir o dia a dia; e os clubes, permanentemente entretidos com o respetivo umbigo, incapazes de ver para além do dia de hoje.

Tenho para mim que, ou bem que Governo e Federação pegam no assunto a sério, ou se formos esperar pelos clubes para o fazer (seja individualmente, seja agregados na Liga), nunca nada vai mudar. Afinal, são eles os principais interessados, mas, ao mesmo tempo, também são a maior força de resistência à mudança.

E tanta coisa poderia mudar para fazer frente aos desafios que deveríamos ter enfrentado há tanto tempo: desde o quadro competitivo, à questão da centralização dos direitos televisivos; desde as questões relacionadas com a forma como se forma e avalia os árbitros em Portugal, até à relação entre clubes, adotando-se medidas que impeçam a criação de situações de abuso de posição dominante...

Mas a mudança exige coragem e pensamento estratégico, algo tão raro no futebol luso como a água no deserto.

Finalmente, o quadro mais amplo. É verdade, Portugal já não tem equipas na Europa. Mas e os outros países que vêm a seguir no ranking? Os que imediatamente nos seguem também já não têm nenhuma e depois há uns quantos países com o máximo de uma equipa ainda presente.

É que, se em Portugal o desequilíbrio é gritante, na Europa também, com a agravante de que o sistema está criado para cavar um fosso cada vez mais fundo entre as cinco (quatro?) principais ligas e todas as outras. Enquanto não se resolver essa questão, ainda que façamos a nossa parte, continuaremos a ter dificuldades. O problema é que nem isso fazemos.