Os clubes controlaram o vírus, agora devem controlar a língua

Os clubes controlaram o vírus, agora devem controlar a língua
José Manuel Ribeiro

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O protocolo para a pandemia funcionou já em quase metade da época sem grandes prejuízos nem distorções. Mas não há testes para o bom senso

No futebol profissional (e não só), convivem dois vírus, um tão mau como o outro. Em menos de 24 horas, na hora H para os milhares de empregos diretos e indiretos que dependem do jogo, um dilema que podia ter sido discutido entre adultos transformou-se num monstro devorador de idoneidades.

Sem qualquer razão, foi posto em causa o laboratório que faz a maioria dos testes de covid da I Liga e, pelo caminho, também os próprios testes; departamentos médicos de clubes foram destratados com uma ligeireza surreal; a honestidade de figuras sem qualquer relação com o tema (como o presidente da FPF!) foi sub-repticiamente questionada; e no fim, claro, pedradas à Liga de Clubes pelas razões habituais: porque é fácil e porque os tontos gostam de acreditar nessa história. A cada pedrada, a cada irresponsabilidade própria que os clubes atiram à Liga ou permitem que lhe seja atirada, menos poder ela tem para fazer o que eles continuarão a exigir-lhe.

Contra algumas expectativas (incluindo as minhas em certas áreas), o protocolo do futebol profissional para a pandemia funcionou, já em quase metade da época. A verdade desportiva não foi demasiado distorcida, as polémicas que apareceram (e tinham de aparecer) foram diluídas e a vida continua sem disparidade de prejuízos. Basta alguma contenção para que seja assim até ao fim. Basta que os clubes parem de querer ganhar tudo até ao último caroço, no campo, na secretaria, na moralidade, no berro, no insulto ou no tamanho dos genitais. Deviam gravar, em grandes carateres, na porta do anfiteatro da Liga: ninguém tem sempre razão.