O doutor Pedrosa e o nome da Rosa

O doutor Pedrosa e o nome da Rosa

BOLA DE TRAPOS - A crónica de Miguel Carvalho, publicada todos os domingos em O JOGO

Nos meus tempos de jornalista desportivo, José Pedrosa, o treinador de Rosa Mota, era a sombra do elefante. Explico para não pensarem que é ofensa: a atleta portuguesa era de tal forma gigante para o orgulho pátrio que a sua sombra só podia ser do seu tamanho.

A sombra de Rosa Mota, desde os primórdios, sempre foi José Pedrosa, o treinador, médico e companheiro da atleta que colecionou medalhas e provocou no seu povo lágrimas de alegria sufocadas por décadas de frustrações coletivas. Ela correu por nós, por vezes quase tão periclitante como o País, mas arrancando, ao seu corpo franzino, energias, valentia e resistência que inspiraram quotidianos de superação. Devemos-lhe isso. E talvez a capacidade de sorrir sempre, na adversidade.

O doutor Pedrosa foi também fazendo o seu caminho.

Qualquer jornalista experimentado sabe que o homem raramente fala em público quando se trata de matérias delicadas. E, no entanto, farta-se de falar, desde que desligado o botão. Pedrosa é um maratonista do "off the record", o ventríloquo da relação, a "fonte próxima" de estatuto olímpico. Talvez não saibamos tudo sobre o que ele faz em defesa do nome da Rosa. Mas em nome da Rosa também o fomos deixando à solta, sem escrutínio, fazendo de conta que ela é ele e vice-versa.

Desde os tempos do telefone que o doutor Pedrosa é o especialista na modalidade discursiva da terceira pessoa: gosta de dizer "a Rosa diz", "a Rosa pensa", "a Rosa acha", "a Rosa fez", "a Rosa nunca" ou "a Rosa talvez". A Rosa é ele e ele é a Rosa. Ele e a Rosa pensam o mesmo, decidem igual. É um casal de corredores de fundo, blindado a intempéries e garantia de narrativa uniforme, sem fissuras. Se quisermos ouvir Rosa Mota fora de um evento desportivo ou social devidamente protegido, voltamos ao mesmo: não se chega à Rosa sem passar pelo doutor Pedrosa. Em parte, é justo. Ou não estivesse ele intimamente ligado aos sucessos da atleta, em cuja simplicidade a maioria do povo se revê.

Ora, por estes dias levantou-se um vendaval dos antigos com a polémica refundação do Palácio de Cristal, apesar de palácio já não ser e de o cristal já não se ver. O denominado Pavilhão Rosa Mota foi secundarizado em função do "Super Bock Arena" por defeito público e vício privado.

Traduzindo: o dinheiro de todos não chega para tudo e o da economia privada estica, como se sabe. Por escrito, Rosa Mota diz-se "enganada pela autarquia do Porto e estará até desconfortável por se ver associada a uma marca de cerveja, embora seja promotora da confraria da dita.

A indignação cidadã e o debate sobre esta espécie de "direito de pernada" do privado em relação ao virginal espaço público está para durar. Mas há muito por esclarecer.

A maioria autárquica precisa de explicar se o seu "conceito" de cidade passa por "descer a Rua Samsung Alegria em direção ao Arena Super Bock - Pavilhão Rosa Mota, passando por Huawei Firmeza, EDP Sá da Bandeira, Teatro Municipal Ovomaltine Rivoli, Túnel Paco Rabanne de Ceuta e Museu Nacional Dolores Aveiro Nutella Soares dos Reis", como ironiza, com centelha literária, o meu amigo Marcos Cruz.

A empresa cervejeira devia dizer-nos que acepipes terão estado à mesa das negociações relativas ao futuro do palácio-pavilhão-arena. E Rosa Mota, que já é crescidinha, devia, pelo menos uma vez, explicar-nos, de viva voz e sem intermediários, os bastidores da sua indignação, para não estarmos dependentes do habitual bichanar do seu ventríloquo de estimação.

Chegados aí, talvez o Porto possa olhar-se ao espelho e descobrir quem, de entre as suas figuras, ídolos, símbolos e marcas de referência, vale mais do que a espuma. Na cerveja, é essencial, como se sabe. Noutras matérias, só serve para enganar e distrair.