E se nada disto tivesse acontecido?

E se nada disto tivesse acontecido?

LIGA-TE >> Era esta a crónica que, sem o suspeitar, ansiava por escrever antes de o Coronavírus, com a normalidade quotidiana, nos ter roubado a emoção do futebol.

17 de maio, os campeonatos profissionais da época 2019-20 chegam, enfim, à hora de todas as decisões, ao zénite da emoção, por ocasião da disputa dos últimos três pontos do ano. É o dia da consagração dos campeões, da vitória e da glória e o dia da difícil contabilidade dos que, com um punhado de pontos, atingiriam o objetivo. É o dia da festa nas praças das cidades dos vencedores, de ajuntamentos e palmas e cânticos, com milhares de adeptos a partilhar um mar informe de abraços, em alegria total.

Era esta a crónica que, sem o suspeitar, ansiava por escrever antes de o Coronavírus, com a normalidade quotidiana, nos ter roubado a emoção do futebol.

O dia 17 de maio vai, afinal, viver-se a 26 de julho, mas já é certo que não será com o brilho e o encanto que esperávamos. Não haverá ajuntamentos, muito menos abraços e, em lugar de se fundir no coro de uma multidão exuberante, a expansão de emoções irá ecoar, sem graça ou consequência, nas paredes de casa de gente em variáveis graus de confinamento.

Para metade dos clubes profissionais, na LigaPro, a festa da vitória ou a dor da derrota, já se fez sem que alguém a houvesse notado. Impedidos de continuar, todos os campeonatos além da Liga NOS fecharam a época - sem o fazerem propriamente - por decreto governamental.

Apenas o primeiro escalão, que conseguiu uma relutante luz verde para avançar, vai retomar, sob medidas de segurança a que nenhuma outra atividade se impôs. Teremos as equipas de volta, para disputar os pontos que restam, por vezes longe da sua casa, sempre longe dos seus adeptos.

Sabemos que nos 90 jogos restantes estaremos privados da presença física dos adeptos, dos que, nas bancadas, com os cachecóis e bandeiras esvoaçantes, enquadram e dão cor ao espetáculo das quatro linhas e com as suas reações apaixonadas gravam a banda sonora de cada jogo.

A vocês, o 12.º jogador de todos os dias, lanço este apelo: vejam os jogos em casa. Não se exponham a esta peçonha que já nos tirou tantas alegrias. Honrem o esforço que os vossos e nossos heróis vão fazer para nos darem uma amostra esterilizada do espetáculo que costumamos viver em cru. É por vós e por nós que os jogadores, muitos deles afastados das mulheres e dos filhos, num estágio de quase dois meses, entrarão de corpo e alma e cabeça erguida nos relvados, à espera do silvo do apito inicial que irá ecoar nas bancadas vazias, para ressoar nos nossos corações.